Heteronimos Mestiços


chove demais
novembro 10, 2006, 1:56 pm
Filed under: coisas erradas, cotidiano, distâncias, esquinas, transbordos internos

chove demais quando eu escrevo. o tempo do lado de fora da janela parece traduzir o que habita dentro do peito. chove tanto que todos os sentimentos ficam transbordados. inundados. exageradamente molhados pulsando dentro de mim. não há espaços vazios. todos os espaços são ocupados. pelo mal humor, pelo mau amor. com falsas e verdadeiras dores. existem mentiras demais no que escrevo. cartas vazias. remetentes inexistente. as coisas estão sempre pela metade. as palavras nunca são ditas por inteiro.eu sou só metade quando escrevo. uma parte que dilacera. não existem amores perfeitos dentro de mim. quando rabisco. sobram músicas tristes, baladas infelizes de alguém que dança sozinha no escuro do quarto. não existem palavras com sentido. há exagero demais no que escrevo. tempestades que trovejam dentro de mim. meu silêncio? não existe, apenas gritos. berros. palavrões. há mentiras demais. medos demais. desejos demais. vontades demasiadamente grandes. tão grandes que não cabem em mim. e transbordam como a chuva do lado de fora da janela do quarto.



beijo
novembro 7, 2006, 6:23 pm
Filed under: amores correlatos, beijos, descrições, detalhes, vontades meliantes

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez, a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar.

Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

 Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os nossos corpos se tocam, respiramos confusos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio.

Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.



vertigens ressonantes
novembro 1, 2006, 6:17 pm
Filed under: caprichos, detalhes, distâncias, esquinas, fome de quê?, vontades meliantes

dramatis literae

Ele – sim, criar da tesao
Ela – exatamnete como vc.
Ele: eu crio?
Ela: não, vc dá tesão
Ele: Você também dá

Você me dá tesão. não dos poucos. em doses cavalares. há muito tempo. e depois que fiz o que fiz. cheguei até perder o sono. confessei aos poucos. baixinho na timidez de um computador o que sentia por você. sentia sem ao menos sentir sua mão vagarosamente em meu rosto. ou um beijo demorado. longo. daqueles em que a morte instantânea do ar se torna macia e deliciosa. não queria que fosse assim. poderia ter sido no café. com você me comendo com os olhos. e eu saciando uma sede vascular. podia ter sido no meio de uma tarde, com qualquer coisa no som e nos ouvindo em silêncio. ouvir o que o corpo pede (melhor dizer clama) parei pra pensar no toque suave de suas mãos. que gosto tem tua boca? passei horas outro dia pensando. maldade pensar. e seu nome na lista dos conectados no msn. janela. eu queria mesmo é uma janela pra estar ai. bem próximo, tão próximo que o meu corpo é o seu corpo encostado no meu. maldito tempo e distância (ou melhor timidez) e você ali, parado na mesa do lado tomando sopa pelos dentinhos da frente. eu na outra ponta. observando. certeza? nenhuma, e se não for, pago o mico? Pago. Não pago? Indecisão geminiana terrível. queria você próximo dos meus quadrantes, queria você esquentando o corpo nesta tarde fria e chuvosa de São Paulo.



Romper
novembro 1, 2006, 2:00 pm
Filed under: amores correlatos, coisas certas, Poemas

Romper por necessidade
Romper por que é inevitável
Romper um vicio.
Romper um vinculo
Romper a necessidade.
Romper por querer
Romper pela fragilidade
Romper pela experiência.
Romper pelo inconfundível desejo
Pela própria demência
Romper por prazer
Por temer
Por qualquer coisa
Para quebrar uma rotina
Ter de seguir uma outra estrada
Mudar o caminho.
Mudar a si próprio
Mudar quando não se quer.
Quando se quer
Ter de mudar.
Não querer mudar.
Com medo de perder
Perder tudo, o rumo, o prumo.
Até mesmo o sumo.
Romper pra perder
Porque perder é mais do que necessário
Perder por necessidade
Romper a esperança de seguir
Romper por saber que não irá durar
Acabar.
Perder não por que quer
Mas porque está no verbo: Precisar
Porque é a atitude mais madura a fazer.
Chorar por romper
Por perder
E saber que para mudar
É sempre necessário optar
Escolher.
E as escolhas nunca são fáceis
De se fazer.




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