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Você nem esperou o ano terminar. foi logo me dando a notícia da sua saída total da minha vida, e agora fica um vazio. um enorme quarto vazio, com uma cama vazia e o meu corpo sobre ela. ao meu redor o que me preenche? mais espaços vazios. eu já havia me acostumado com eles, já havia me acostumado a viver sem a sua presença costante ali. mas as marcas da sua mão sobre o meu corpo ainda permaneceram aqui. e isso talvez seja o que mais arde e dói em mim. a lembrança sutil da sua presença em minha vida. o simples respirar próximo dos ouvidos. foi assim que você foi embora, ao pé do ouvido cansado desta vida ingrata. eu mais cansada ainda havia desistido de lutar há muito tempo. e todos os amores foram embora. e todas as dores foram embora e tudo que resta agora é o vazio. um novo coração para ser preeenchido de um amor que eu já não reconheço mais. um sentimento tão vazio quanto este quarto, tão vazio quanto a minha alma. sentada na cama sem lágrimas, sem vestigios reais de sua presença existe um conforto quase mentiroso, um conforto parecido com uma justificativa. só uma justificativa para passar mais desapercebido este momento. e vou ficando ali no quarto, sentada na cama tentando me acostumar com as portas fechadas e você longe da minha vida.
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Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez, a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar.
Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os nossos corpos se tocam, respiramos confusos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio.
Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.