Heteronimos Mestiços


portas fechadas

Você nem esperou o ano terminar. foi logo me dando a notícia da sua saída total da minha vida, e agora fica um vazio. um enorme quarto vazio, com uma cama vazia e o meu corpo sobre ela. ao meu redor o que me preenche? mais espaços vazios. eu já havia me acostumado com eles, já havia me acostumado a viver sem a sua presença costante ali. mas as marcas da sua mão sobre o meu corpo ainda permaneceram aqui. e isso talvez seja o que mais arde e dói em mim. a lembrança sutil da sua presença em minha vida. o simples respirar próximo dos ouvidos. foi assim que você foi embora, ao pé do ouvido cansado desta vida ingrata. eu mais cansada ainda havia desistido de lutar há muito tempo. e todos os amores foram embora. e todas as dores foram embora e tudo que resta agora é o vazio. um novo coração para ser preeenchido de um amor que eu já não reconheço mais.  um sentimento tão vazio quanto este quarto, tão vazio quanto a minha alma. sentada na cama sem lágrimas, sem vestigios reais de sua presença existe um conforto quase mentiroso, um conforto parecido com uma justificativa. só uma justificativa para passar mais desapercebido este momento. e vou ficando ali no quarto, sentada na cama tentando me acostumar com as portas fechadas e você longe da minha vida.



chove demais
Novembro 10, 2006, 1:56 pm
Arquivado em: coisas erradas, cotidiano, distâncias, esquinas, transbordos internos

chove demais quando eu escrevo. o tempo do lado de fora da janela parece traduzir o que habita dentro do peito. chove tanto que todos os sentimentos ficam transbordados. inundados. exageradamente molhados pulsando dentro de mim. não há espaços vazios. todos os espaços são ocupados. pelo mal humor, pelo mau amor. com falsas e verdadeiras dores. existem mentiras demais no que escrevo. cartas vazias. remetentes inexistente. as coisas estão sempre pela metade. as palavras nunca são ditas por inteiro.eu sou só metade quando escrevo. uma parte que dilacera. não existem amores perfeitos dentro de mim. quando rabisco. sobram músicas tristes, baladas infelizes de alguém que dança sozinha no escuro do quarto. não existem palavras com sentido. há exagero demais no que escrevo. tempestades que trovejam dentro de mim. meu silêncio? não existe, apenas gritos. berros. palavrões. há mentiras demais. medos demais. desejos demais. vontades demasiadamente grandes. tão grandes que não cabem em mim. e transbordam como a chuva do lado de fora da janela do quarto.



vertigens ressonantes
Novembro 1, 2006, 6:17 pm
Arquivado em: caprichos, detalhes, distâncias, esquinas, fome de quê?, vontades meliantes

dramatis literae

Ele – sim, criar da tesao
Ela – exatamnete como vc.
Ele: eu crio?
Ela: não, vc dá tesão
Ele: Você também dá

Você me dá tesão. não dos poucos. em doses cavalares. há muito tempo. e depois que fiz o que fiz. cheguei até perder o sono. confessei aos poucos. baixinho na timidez de um computador o que sentia por você. sentia sem ao menos sentir sua mão vagarosamente em meu rosto. ou um beijo demorado. longo. daqueles em que a morte instantânea do ar se torna macia e deliciosa. não queria que fosse assim. poderia ter sido no café. com você me comendo com os olhos. e eu saciando uma sede vascular. podia ter sido no meio de uma tarde, com qualquer coisa no som e nos ouvindo em silêncio. ouvir o que o corpo pede (melhor dizer clama) parei pra pensar no toque suave de suas mãos. que gosto tem tua boca? passei horas outro dia pensando. maldade pensar. e seu nome na lista dos conectados no msn. janela. eu queria mesmo é uma janela pra estar ai. bem próximo, tão próximo que o meu corpo é o seu corpo encostado no meu. maldito tempo e distância (ou melhor timidez) e você ali, parado na mesa do lado tomando sopa pelos dentinhos da frente. eu na outra ponta. observando. certeza? nenhuma, e se não for, pago o mico? Pago. Não pago? Indecisão geminiana terrível. queria você próximo dos meus quadrantes, queria você esquentando o corpo nesta tarde fria e chuvosa de São Paulo.