Heteronimos Mestiços


depois do acordar
Outubro 19, 2006, 11:16 am
Arquivado em: Egoblogger, Relatos, cotidiano, manhãs desarmadas

mexo os pés. eles costumam ficar emaranhados na sobra do edredon no fim da cama. abro aos poucos os olhos. e penso em qualquer besteira. hoje penso que as escolhas são difíceis de fazer. tem um livro em cima do móvel. só pela cor já sei qual é. andei perdida dentro desta literatura pouco conhecida. Lis no peito. aos poucos vou me refazendo pro mundo. quero mais quinze minutos na cama. e ninguém nela. para eu me espreguiçar, espreguiçar..acordar…um beijo por favor? nada. o que me acorda é alguém que passa na porta dizendo  – Vanessa, 06h30. Acordo. Levando e vou direto pro banheiro. nem olho no espelho, não quero me assustar tão cedo. Roupas a escolher, cabelos a arrumar, qual o brinco, qual o sapato. Abro a janela e Joss Stone soa I hope you understand. Neste momento se alguém me visse não entenderia nada. quero a cama novamente. poderia estar num pub irlândes e Joss tocando..alguns amigos se embebedando e eu me perdendo na língua gostosa de um desconhecido. nada disso. estou no meu quarto. abro a janela seminua. do quinto andar ninguém me vê. o vento gelado me recorda que estamos numa meia estação. nem para ser uma inteira poxa? meia soa tão imparcial. metades inteiras. termino de me arrumar e Joss vai dando adeus ao som. E eu vou dando adeus ao meu sono íngreme nesta manhã cinzenta.



loucura
Outubro 11, 2006, 5:04 pm
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tem dias que fico aqui sentada, enquanto o trabalho voa, vou me despertando aos poucos pro mundo. uso óculos escuros, pois a tela do computador me incomoda. quero ir embora. pra onde? não sei..talvez pro mundo. acesso alguns sites. solto gargalhadas. estou lendo o edu e alguns outros autores. releio alguns textos interessantes. os emails não chegam. entre um telefonema e outro todos os sentimentos pelos meus poros. dou mais risadas. daqui a pouco converso comigo mesma. estou tomando algumas decisões enquanto meu corpo decide se é corpo ou saco de batatas. não me visto bem ultimamente. pareço um moleque perdido de rua. mas ao mesmo tempo meu cabelo é lindo. ando desarmada e amada demais. muitas pessoas querendo só me comer. ontem almocei com um, e depois jantei com outro. na verdade ele quase me jantou. mas eu não deixei. fiquei pasma agora com isso.  depois de um tempo o prazer vem em doses cavalares. ou não. senti o gosto da boca de um dos rolos do final de semana. e o veneno nos olhos depois de ver aquele fulano com a outra fulana. ando. o dia todo. mesmo sentada estou caminhando. mexo os pés. chegou a hora de cantar. por favor uma jukebox decente. nada. músicas velhas, empacotadas. amores perdidos. sozinha vou escrevendo este post sem fim. viajo na maionese. a vontade que tenho? de gritar..ou de permanecer deitada no sol por um tempo. mas e o calor? vamos a praia. não. tira a saia. não. mão aqui. ali. mais pensamentos obscenos. pra onde vou? não sei. e vc? porque é que ainda não foi ler algo mais interessante…



sombria ventania em mim
Setembro 28, 2006, 4:42 pm
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as vezes eu me perco. percorro. transporto. capiciosamente me desfaço. corro pelo seu universo. as vezes sou arma. que atira sem pensar. sou a dor do parto. as vezes sou silêncio. sou cadência desmedida. lágrima corrompida. as vezes não sei o que sou. e peço para não saber. peco para não sangrar. desmaio para entender. as vezes sou sono. raio de sol. janela indiscreta. não quero nada. e ao mesmo tempo tudo. sou muito daquilo que quero ser. pouco daquilo que deveria. não me pertenço. e nem pertenço a ninguém. as vezes quero ser a criança sem medo. o gato com sono. quero ser  o cão tomando sol. as vezes mulher meretriz, santa de altar. as vezes nada. na maior parte das vezes eu não quero ser. mas sim sentir. vibrar. cantar. gritar. si-len-ci-ar. as vezes eu quero só a morte. mas também desejo ardilosamente a vida”



Ana Lúcia e Jorge
Setembro 27, 2006, 4:10 pm
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Ana Lúcia estava a beira do poço de um desejo. Sentia-se com o pensamento amarrado, emaranhado em congluências infinitas. Sentia-se como infinitas borboletas dentro do estômago, perdidas, debatendo-se para achar a saída. Como se fosse sucumbir ao seu desejo. Mas estava parada. Observava seu desejo e fazia com que o sentimento todo expandisse pelo seu corpo. Era uma única sensação, que não durava nada, nem mesmo um milésimo de segundo. E Jorge estava ali. deliberadamente sentado escutando um som qualquer. Estava apoiado no tronco da árvore, apoiando a vida no colo. Lendo algo qualquer. Mal sabia ele o que causava em Ana Lúcia. O que Jorge sabia é que havia optado em ser um fruto da árvore vida. Gostava de saber que estava vivendo. Provava todas as bocas e salivas que almejava. Não disperdiçava nada. Estava lá saboreando a manhã em que estivera com Renata. Jorge queria ser devorado enquanto estivesse maduro. Era como o suco da fruta que escorre pela lateral do lábio das fêmeas que agora lhe vinham na cabeça. Nenhuma gota desperdiçada. Provar da vida. Sugar tudo que ela podia lhe conceder. Ana quase desejava provar o gosto do fruto. Quase. Era doce demais perdurar aquele momento pra sempre. Estar diante do desejo e lhe corromper. Não ceder. Estar diante do desejo e provocar seu corpo. Como o segundo que antecede todos os beijos. Antes de concluir-se, podia provar da arte finita, poderia simplesmente vibrar, cantar e estremecer pela última vez seus flagelos. era assim que sentia-se. E Jorge queria ser devorado, antes de apodrecer lentamente pendurado num galho qualquer da árvore chamada vida.