Heteronimos Mestiços


beijo
novembro 7, 2006, 6:23 pm
Filed under: amores correlatos, beijos, descrições, detalhes, vontades meliantes

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez, a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar.

Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

 Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os nossos corpos se tocam, respiramos confusos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio.

Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.



vertigens ressonantes
novembro 1, 2006, 6:17 pm
Filed under: caprichos, detalhes, distâncias, esquinas, fome de quê?, vontades meliantes

dramatis literae

Ele – sim, criar da tesao
Ela – exatamnete como vc.
Ele: eu crio?
Ela: não, vc dá tesão
Ele: Você também dá

Você me dá tesão. não dos poucos. em doses cavalares. há muito tempo. e depois que fiz o que fiz. cheguei até perder o sono. confessei aos poucos. baixinho na timidez de um computador o que sentia por você. sentia sem ao menos sentir sua mão vagarosamente em meu rosto. ou um beijo demorado. longo. daqueles em que a morte instantânea do ar se torna macia e deliciosa. não queria que fosse assim. poderia ter sido no café. com você me comendo com os olhos. e eu saciando uma sede vascular. podia ter sido no meio de uma tarde, com qualquer coisa no som e nos ouvindo em silêncio. ouvir o que o corpo pede (melhor dizer clama) parei pra pensar no toque suave de suas mãos. que gosto tem tua boca? passei horas outro dia pensando. maldade pensar. e seu nome na lista dos conectados no msn. janela. eu queria mesmo é uma janela pra estar ai. bem próximo, tão próximo que o meu corpo é o seu corpo encostado no meu. maldito tempo e distância (ou melhor timidez) e você ali, parado na mesa do lado tomando sopa pelos dentinhos da frente. eu na outra ponta. observando. certeza? nenhuma, e se não for, pago o mico? Pago. Não pago? Indecisão geminiana terrível. queria você próximo dos meus quadrantes, queria você esquentando o corpo nesta tarde fria e chuvosa de São Paulo.




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